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O VIANDANTE ESCLARECIDO



Alberto Carneiro. As imagens do corpo e da paisagem. Vista da exposição: Os caminhos da água e do corpo sobre a terra. Porta33.



Muitas das minhas mais gratificantes experiências de relação com a paisagem natural tiveram lugar na ilha da Madeira. Recordo dezenas de passeios maravilhosos, em todas as acepções da palavra maravilhosos, em que, segundo a orientação de sábios amigos, fui assistindo ao desdobramento de surpreendentes visões que se substituíam umas às outras numa deslumbrante sequência de cores, cortes, perspectivas, sombras, cheiros, brilhos, silêncios.

Recordo uma inesquecível ascensão em que, numa mesma tarde, ao longo da subida, foram variando a luz, a imagem do céu e das nuvens, o recorte da paisagem lá ao fundo. Num momento, o sol brilha como numa manhã de Verão. Um pouco mais acima o céu transforma-se num mar de espuma. Depois, cai uma noite profunda. Logo a seguir é o sol que volta a nascer rasgando escuros embrulhos de nuvens. Continuamos a subir, o ar fica mais frio e a luz começa a ganhar uma intensidade própria que já quase não deixar ver nada. É apenas luz. As nuvens dissolvem-se num céu que se estende como um lençol imenso cujo limite não se pode já dizer se é a orla de uma outra longínqua montanha ou um mar ou talvez um outro céu.

Foi também na Madeira que tiveram lugar as minhas primeiras longas conversas com Alberto Carneiro, conversas sem nenhum objectivo concreto ou intenção pragmática, encaminhas pelas variações da luz, a cadência das lapas, dos peixes e dos vinhos, a passagem das horas. Conversas como algumas conversas às vezes sabem ser e sabem bem. Às vezes, as circunstâncias põem-se de acordo para gerar cruzamentos propícios e gostaria que fosse esse o caso deste texto.

O trabalho de Alberto Carneiro é o resultado de uma experiência pessoal de relacionamento de um artista com a natureza, nos termos em que ele a vive e entende, enquanto geradora de uma reflexão mais geral e de um processo de produção especificamente artístico, estético, se quiserem, de que acaba por resultar aquilo que nos é proposto e que nos habituámos a designar como sendo obras de arte. A mediação conceptual e estética faz com que as obras possam atingir um nível de generalidade suficiente para nos interpelarem, a cada um de nós, e a mim, em particular, no caso deste texto, de um modo também pessoal. Por isso me sinto autorizado a introduzir algumas deambulações preambulares que dão conta das minhas próprias experiências e questionamentos pessoais para os quais o trabalho de Alberto Carneiro tem constituído um interlocutor privilegiado, ou talvez melhor, na ocorrência, um inspirados companheiro de viagem.

Muitas vezes, durante os meus passeios, quando sou levado a deter-me perante uma visão e um sentimento que se me afiguram excepcionais, paro, tento abrir os olhos um pouco mais e, como quem respira fundo, enchendo os pulmões até ao limite da sua capacidade, pergunto-me o que é que será possível fazer para preservar aquilo, aquele momento, aquela consciência entre uma visão e um sentimento.

Uma experiência deste tipo, pode ter lugar em diferentes circunstâncias.

Por exemplo, numa grande cidade, no meio dos grandes volumes dos prédios, das linhas desenhadas pelos automóveis e da agitação de uma multidão de transeuntes. Mas ali, no meio da cidade, nem tudo parece ter de estar perdido. Há uma óbvia escala humana e é fácil admitir que a experiência poderá ser repetida. Estamos, apesar de tudo, perante um mundo de coisas que julgamos controlar.

Perante o mar, para dar um outro exemplo, simétrico, estamos no outro extremo do leque das possibilidades emocionais. O mar é, em si, uma forma infinita da liberdade e o poder do mar, por si só, pela grandeza da sua presença, transmite-se numa completude sem falhas a todos aqueles que o amam.

Mas não foi a experiência do mar nem das cidades que me conduziram ao diálogo com a obra de Alberto Carneiro e porque é dele que aqui se trata vou circunscrever a análise da referida experiência espacial de excepção aos domínios do reino vegetal da natureza.

Aquilo a que chamo o reino vegetal da natureza é um mundo de terras, árvores e ervas, verdes e castanhos, entre o chão e o céu, atravessado por traços de água, às vezes visíveis, audíveis, outras vezes subterrâneos.
Para mim este é um território de ameaças, mistérios e compilações em que tudo se afigura mais complexo e imponderável. Nada é livre e infinito como o mar porque tudo está preso a raízes e aos inexoráveis ciclos do tempo vital. Tudo parece imóvel e fechado sobre si próprio mas rapidamente descobrimos que as coisas se mexem por dentro de si mesmas, à sua maneira, e que, afinal, tudo é irrepetível e incontrolável porque sujeito às inclinações e caprichos do vento, da luz, das águas.

Uma cidade constrói-se ou destrói-se, o mar não acaba nunca, mas uma montanha, um rio, uma árvore, são muito mais complicados. Porque são descendentes da imortalidade e no entanto, não são eternos. Isto pode causar uma espécie de paradoxal claustrofobia cujas imagens mais comuns correspondem talvez às sensações de estarmos fechados dentro de uma árvore ou bloqueados por uma montanha intransponível. Mas, ao mesmo tempo, basta levantar os olhos para o céu ou encostar à terra o silêncio dos olhos fechados para pressentir que por ali passa, indesmentível, uma profunda promessa de paz.

O nó de sensações contraditórias que me aparece associado à experiência da natureza vegetal torna particularmente gratificante, quando levado a meditar sobre estas matérias, poder contar com a companhia de um viandante esclarecido como é Alberto Carneiro.

O trabalho Os caminhos da água e do corpo sobre a terra (2002-2003), concebido propositadamente para as salas do 1º e 2º andares da Porta 33 no Funchal tem como ponto de partida uma série de passeios pelas montanhas da Madeira e uma particular atenção prestada às levadas, uma forma tradicional de encaminhamento da água que é uma das mais características marcas da paisagem rural da ilha.

“O título Os caminhos da água e do corpo sobre a terra é um título abstracto que não remete para a Madeira objectivamente, pode remeter para qualquer sítio. Mas de facto este trabalho remete particularmente para a água das levadas e acima de tudo para a situação espacial que as levadas criam. É uma situação complexa na medida em que o problema da circulação da água é fundamental relativamente à localização do corpo sobre o espaço, isto é, relativamente à topografia da ilha e relativamente à necessidade da água como um elemento vital. Para mim as questões de vitalidade dos elementos são fundamentais e aqui jogou exactamente esse lado. Há também o modo como o espaço vai sendo organizado ao longo das levadas que tem a ver com o modo como a natureza se dispõe, quer relativamente a uma pequena intervenção do homem, que é mínima apesar de tudo, quer relativamente, digamos à própria situação do terreno e portanto ao modo como a natureza se vai organizando, depois, de uma maneira plástica, de uma maneira, diríamos, formal, no sentido da plasticidade, não no sentido da forma propriamente dita.”

A obra, que se distribuiu por três salas, é uma das mais completas e complexas que Alberto Carneiro realizou nos últimos anos e, na medida em que pode ser vista como uma obra de síntese em relação a muitas das suas linhas de pesquisa, constitui uma excelente porta de entrada para uma análise de conjunto.

A principal linha condutora da leitura desta obra é, literalmente, uma linha. O autor chama-lhe “linha do olhar: do corpo sobre a paisagem”. Ao longo das paredes das três salas pelas quais se distribui este trabalho o visitante é levado a percorrer, à altura dos olhos, uma linha composta por uma sucessão de fotografias ou desenhos que são uma reconstituição pessoal da experiência das caminhadas do autor.

A linha condutor da exposição é, assim, também, a linha do horizonte associada a uma experiência que foi a do artista e que agora é proposta ao observador com um horizonte de possibilidades. As fotografias não visam apresentar, nem apresentam, uma reconstituição imagética realista de um trajecto na paisagem. Não estamos perante uma atitude documental e a própria alternância entre o registo fotográfico e o registo, muito mais imponderável, do desenho feito à mão reforça a natureza aberta e reversível deste tipo de registo ou evocação.

Conforme escreves Gilles Tiberghien, analisando as teorias contemporâneas da paisagem, “para ver uma paisagem precisamos de um certo recuo, de uma distância que não é apenas física mas também intelectual”. Ao percorrer uma paisagem, “temos a experiência das suas dimensões em relação ao nosso olhar e à sua complexa organização. A geografia das formas capturadas pelo nosso olhar móvel determina o enquadramento. A vontade de se aproximar ou de se afastar, ou de produzir uma representação da paisagem, permite-nos compreender a dialéctica corpo-horizonte que lhe é inerente. A travessia é física tanto quanto mental; e pressupõe técnicas de distanciação, diário de bordo, caderno de esboços, ou técnicas de “transposição paisagística” como as que se praticam no Japão”. O mesmo autor fala-nos de “artialização” (artialisation) da paisagem um termo que Alain Roger (Les théories du paysage en France (1974-1994), Seyssel, Champ Vallon, 1995) foi buscar a Montaigne e sublinha o facto de artistas como Richard Long ou Hamish Fulton terem “devolvido (redonné) à paisagem uma realidade mental” (in Critique, nº613-614, Junho/Julho 1998, Paris).

Os métodos de trabalho utilizados por Alberto Carneiro asseguram e ampliam um espaço de distância, especificamente plástica, em relação ao que seria o registo documental de uma viagem, para que, nessa distância e através dessa distância, possa surgir o espaço que permite que a linha a que nos vimos referindo se transforme, no momento actual que é agora o da visão da exposição, na linha do horizonte do visitante. Um espaço suficientemente amplo para permitir, também, que a experiência do olhar e da caminhada nas salas da galeria induza a adopção do ritmo que torne possível ao observador ver para além das fotografias e desenhos que lhe são propostos e chegar a conseguir evocar e olhar para as suas próprias memórias de relacionamento com horizontes comparáveis aos que agora se lhe oferecem. A altura da colocação e a dimensão e espacejamento da sucessão das fotos e desenhos foram determinados para se adaptarem ao ritmo natural de quem passa, olha e deixa passear o olhar: naturalmente.

Mas as imagens propostas nas fotografias e desenhos não esgotam a oferta contida nesta primeira linha de leitura desta obra. Duas frases, com a simplicidade complexa que é característica da escrita do autor, dão-nos as hipotéticas chaves de leitura da exposição. As frases são: “no horizonte do teu olhar és o ser desta paisagem” e “em ti vida fará deste momento a tua arte”.

Procuremos então desdobrar as hipóteses de significação que estas frases desenham.

“No horizonte do teu olhar és o ser desta paisagem”. Quem é que diz esta frase? E a quem? É o artista que fala para o observador, no âmbito de uma relação entre o autor e o seu público. Neste caso, o autor declara a identidade do observador com aquilo que vê que é simultaneamente uma obra de arte e uma paisagem. O observador é chamado pelo artista a fazer parte da arte e da paisagem, a ser arte e paisagem. O autor está no lugar de comando. Mas, ao mesmo tempo, a declaração por ser lida como uma citação daquilo que, segundo o artista, lhe teria sido dito pela própria paisagem. Neste caso, quem fala é a própria paisagem que interpela, primeiro, o artista, e depois, convocada por este, interpela o público. Segundo esta hipótese é a própria paisagem que comanda o processo. É ela que, por assim dizer, põe  o artista no seu lugar e o que este faz é elaborar plasticamente o seu lugar de modo a poder partilhá-lo com os que visitam a sua obra. O artista esteve, e continua a estar, no essencial, no mesmo lugar que o seu público. O lugar de quem, através do olhar sobre a paisagem é chamado, pela paisagem, a ser paisagem.

“Em ti a vida fará deste momento a tua arte”. Conciliando as duas hipóteses de interpretação da frase anterior, diríamos que este “momento” é, quer o momento primeiro do olhar do artista sobre a paisagem, quer cada um dos momentos actuais do olhar de um observador sobre a “linha do olhar” desta obra. O que permite a identificação entre os dois momentos é a colocação destas experiências sob a égide de uma categoria geral e abrangente: a vida. São a presença, a manifestação e a expressão da vida que fazem a arte, que permitem acrescentar a um momento ou dotar um momento de um suplemento (de vida) que o desloca para o lugar a que se chama arte. A possibilidade de ocorrência desta deslocação dependa da capacidade de quem olha (público ou artista) para, num determinado momento, dotar a experiência do seu olhar de uma intensidade de vida suficiente para se identificar plenamente com o horizonte desse olhar. Nesta perspectiva, o lugar de comando é sempre o lugar de quem olha: do lado da vida.

A experiência desta obra, a que Alberto Carneiro gosta de chamar “envolvimento”, uma designação que prefere a “instalação”, uma expressão hoje mais utilizada, não se esgota nos exercícios de dedução e especulação a que até agora nos dedicámos. O que lhes dá sentido é a riqueza e a diversidade dos elementos físicos e materiais que completam a obra e o modo como eles se distribuem de acordo com a estrutura dos espaços de exposição. São estes elementos palpáveis, tangíveis, com cor, cheiro, volume, que permitem que o projecto conceptual acima sugerido faça sentido, ou seja, posso chegar a ser pensado através da experiência dos sentidos.

Os elementos reunidos em cada uma das salas, segundo diferentes combinações escultóricas, adequadas às características arquitectónicas do espaço e à sequência de visita à exposição, são, no essencial, ramos de árvores, paus e ramos de urze, com os quais se constroem os volumes escultóricos e arquitectónicos que encaminham os passos do visitante.

Terra e barro servem de suportes e são também os portadores das marcas do corpo do autor. Jogos de vidros e espelhos, estrategicamente colocados em cada uma das salas ajudam a redesenhar o espaço, redesenhando itinerários, e multiplicam os possíveis jogos de olhares, através da alternância entre transparências e reflexos em espelhos, estes últimos constituindo ainda uma importante forma de inclusão na exposição imagem do próprio visitante.

A diversidade dos elementos utilizados neste envolvimento escultórico e a sofisticação das suas diferentes combinações espaciais abre caminho a uma deambulação retrospectiva que nos conduz a algumas obras fundamentais e emblemáticas do percurso de Alberto Carneiro, do qual se apresente uma significativa e representativa selecção no Museu de Arte Contemporânea – Fortaleza de São Tiago, no Funchal.

“Uma das minhas preocupações é trabalhar com o espaço que me é dado. Se a obra é concebida para o espaço onde a vou mostrar e eu conheço previamente esse espaço, a obra, naturalmente, tem essa componente. Essa é uma das preocupações que atravessa o meu trabalho: o espaço gera a forma, mais do que a forma gera o espaço. Interessa-me muito mais a relação que é estabelecida no espaço do que aquilo que se estabelece de modo intrínseco a cada uma das formas. Nesta medida, cada exposição é para mim um acontecimento, uma coisa nova.”

Começamos pela última sala do último andar do Museu, que acolhe a peça mais recente, Meu corpo vegetal (2001-2002), concebida propositadamente para este espaço.

“«A peça apareceu naturalmente em função do espaço da sala do Museu do Funchal que eu queria ocupar. Digamos que o primeiro dado para essa peça é a sala. Depois era o material que eu tinha disponível, na sua maior parte material que me foi dado por Serralves, proveniente de um castanheiro que secou. Comecei então a trabalhar em função do espaço e cheguei ao número 7. Assentei que o número de elementos tinha de ser um múltiplo de 7 e acabei por ficar com 49 elementos. Trabalhei com os 49 elementos todos ao mesmo tempo sem qualquer programa. À partida ainda não havia nada, o resultado só começou a surgir mais ou menos a meio da gestação. E não há aí habilidade nenhuma do ponto de vista da feitura manual. A mão é capaz de não andar muito por aí. Anda a árvore e depois a leitura que cada elemento natural me fornecia como energia que naturalmente decorre da árvore. Sobre isso sei alguma coisa, como é que a árvore cresce, como é que se desenvolve, que forças é que ela, a partir do momento em que é cortada, começa a gerar de dentro para fora, como é que ela se rompe a si mesma para responder às solicitações da mudança de estado, a passagem de uma coisa que era viva para uma coisa que deixou de ser viva. A seiva já não corre, passa a reagir de outro modo. Toda a estrutura da obra, elemento a elemento, começa a surgir em função destes dados que vão sendo jogados. Depois há referências variadíssimas, referências culturais a vários lugares, por exemplo um barco, uma tartaruga, são referências muito claras a uma situação espacial determinada, remetem para um jardim em Kyoto que já visitei várias vezes e tem para mim um significado muito especial. Mas não há nenhumas correspondências formais directas, estritas. Há a reminiscência e, neste caso, a referência, não sendo formalmente óbvia, foi reconhecida por uma pessoa que tinha estado comigo no jardim: "Parece-me a tartaruga e o barquinho." — Pois é, é isso mesmo.»

Uma primeira visão geral de Meu corpo vegetal impressiona-nos pelo rigor da composição formal e implantação espacial que a faz aparecer como uma obra que poderia ter sido concebida segundo princípios matemáticos de serialidade, simetria e repetição. No entanto, quando nos aproximamos de cada um dos 49 elementos que compõem o conjunto escultórico, o que se afigura mais marcante é a ex- actidão sensível da modelação que parece assentar numa cumplicidade física com a estrutura da matéria-prima, os fragmentos do tronco de uma árvore, um castanheiro, como se a mão apenas ajudasse a exteriorizar a pulsão escultórica implícita no modo de vida da própria árvore.

O efeito de comunhão que resulta do estabelecimento, às mãos do escultor, de uma aparente cumplicidade física entre a madeira das árvores e as formas das esculturas, como se tivesse sido a árvore a pedir a forma que a faz escultura, é uma das marcas distintivas da prática de escultor de Alberto Carneiro e um dos mais persistentes motivos de fascínio associados ao seu talento. É o exercício de um saber oficinal de escultor, esclarecido pela procura de uma cumplicidade espiritual, que nos permite compreender o trajecto que une o trabalho concreto com os troncos de árvores a uma mais vasta conceptualização das questões da constituição de uma identidade humana, na sua relação com a arte e a natureza.

«Eu diria que o grande tema do meu trabalho é a árvore, a árvore no singular, como substância em si, que naturalmente habita a floresta. A árvore como arquétipo de uma cultura e de uma civilização. Eu acho que as identificações profundas são indispensáveis para cada criador. As pessoas só criam a partir dessas identificações, seja com o que for. Naturalmente, as minhas identificações decorrem da minha experiência de vida. Se eu tivesse vivido sempre num meio urbano naturalmente as minhas identificações seriam de outra ordem. Não tenho dúvidas nenhumas sobre isso. Inclusivamente, se eu tivesse nascido noutra civilização ou noutra altura as minhas motivações seriam de outra ordem. Há aqui a busca do caminho artístico, ou da realização artística, que passa por esse processo de identificação profunda que cada um tem de assumir no seu próprio corpo, entendido aqui o corpo globalmente. Não estou a falar apenas do corpo físico, estou a falar essencialmente do corpo mental e do corpo subtil. É um movimento que nós fazemos no espaço relativamente ao tempo, são as deslocações, porque, no fundo, curiosamente, não é o tempo que organiza o nosso espaço é o nosso espaço que organiza o nosso tempo.»

Meu corpo vegetal, na linha de um vasto conjunto de trabalhos realizados ao longo dos últimos vinte anos — como por exemplo Evocações d’água — a partir de determinadas madeiras ou determinadas árvores específicas, dá-nos a dimensão manufactural de um trabalho de identificação, des-construção e re-construção estética da e com a árvore concebida como arquétipo.

No outro extremo do arco cronológico da carreira do autor encontramos O canavial: memória / metamorfose de um corpo ausente (1968), uma peça fundamental da história da arte portuguesa da 2.ª metade do século XX. Aqui encontramos também uma apropriação de materiais vegetais naturais — canas — mas neste caso não se trata de um objecto natural (um tronco ou uma árvore) que se transforma num outro objecto, artístico, através de um trabalho de modelação escultórica.

Com O canavial estamos perante um ambiente ou um espaço natural que, através de um trabalho de conceptualização e deslocação metafórica, se transforma num ambiente ou espaço artístico: uma instalação ou um envolvimento construído com a utilização de materiais naturais.

A disposição no espaço e a forma de organização da circulação do visitante têm aqui um papel fundamental. O fulcro da evocação e convocação não é um objecto mas um lugar, um estado de espírito associado a um lugar e o que ele recorda ou suscita como campo de possibilidades sentimentais. Ao contrário da árvore, arquétipo polarizador, o agrupamento de canas não é o acontecimento mas apenas a pontuação que circunscreve o lugar dos acontecimentos. Os sete rituais estéticos sobre um feixe de vimes na paisagem (1975) é um trabalho em que se assiste ao desenvolvimento desta hipótese. Quase poderíamos dizer que um envolvimento como O canavial é uma cenografia escultórica para uma performance que não é mais do que a nossa presença de visitantes vivos, criaturas dotadas de olfacto e memória.

«O canavial é na minha obra o momento da grande revelação. Sei o momento exacto em que apareceu, a 12 de Dezembro de 1968 às 14h30 no meu quarto em Londres. Apareceu como um flash, e o título da obra também apareceu imediatamente (O canavial: memória / metamorfose de um corpo ausente) e tem efectivamente a ver com a minha primeira experiência sexual, isto é, com a minha primeira noção de sexualidade que decorre de uma brincadeira de crianças. Foi uma espécie de acordar, uma coisa que se impôs imediatamente, ou melhor, que criou um pólo complementar em relação àquilo em que eu estava então profundamente envolvido que era a cultura erudita. Foi uma chamada para qualquer coisa que tinha a ver com uma experiência estética de outra ordem. É por isso que O canavial é para mim uma obra fundadora. Não tanto por muitas pessoas pensarem que é uma obra muito apelativa, do ponto de vista da forma, mas porque está também associada àquela outra dimensão.»

Julgamos que a riqueza e especificidade do trabalho de Alberto Carneiro resulta da sua capacidade de convocar e articular de um modo consistente diferentes registos de aproximação artística à natureza e à paisagem que, a maior parte das vezes, nos aparecem separados, se não mesmo apresentados como antagónicos ou incompatíveis quando descritos de acordo com algumas das mais comuns e simplificadoras arrumações estético-teóricas. Enumeremos alguns dos filões que podem ser evocados:

— a tradição da escultura em madeira, privilegiando a capacidade escultórica de modelação manual e enaltecendo os valores telúricos da ligação aos materiais e formas orgânicas da natureza;

— o experimentalismo vanguardista da land art, dando a primazia à experiência directa da relação física entre o artista e a natureza através de viagens ou caminhadas de que as obras de arte surgem, sobretudo, como um testemunho;

— a arte conceptual e a sua preocupação de inscrever em cada obra de arte uma auto-reflexão sobre o processo de conceptualização e o processo de significação que lhe permitem apresentar-se como obra de arte;

— uma tradição de especulação metafísica relativamente à natureza, tal como ela se manifesta, designadamente nalgumas correntes de pensamento orientais.

Julgamos, no entanto, que se quisermos compreender a unidade profunda do trabalho de Alberto Carneiro deveremos procurá-la não tanto através de uma sempre possível combinatória aplicada de categorias críticas classificatórias mas através da identificação de uma forma peculiar de relacionamento e busca de coincidência entre a memória de uma experiência sensível de imersão total num espaço natural e uma actividade concreta de produção e análise de formas (físicas ou discursivas, objectos, imagens ou textos) em função de determinados espaços e materiais dados.

Ao mecanismo fundamental através do qual se opera esta identificação chamaríamos reminiscência produtiva.

«Há uma coisa que decorreu exactamente das minhas viagens nas levadas. À partida não estava no programa, mas entrou. Tem a ver com algo que percorre o meu trabalho que são as reminiscências. Mantenho que, no plano da criação poética, aquilo que flui como base, como raiz, como energia inicial, é sempre apoiado numa experiência prévia, numa experiência que, à partida, não é consciente, não é consciencializável e só o passa a ser a partir do momento em que se torna evidente. Por isso achei que era fundamental ter uma experiência de tradução da paisagem. A obra que resulta como realizada é aquela que é estabelecida entre uma, entre aspas, autenticidade profunda, e uma verificação mental processual. Para se fazer a obra não chega apenas a intuição, o sentimento, a sensação, é preciso assumir mentalmente e culturalmente esse processo e decantá-lo.»

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Alexandre Melo, in catálogo da exposição na Porta 33 e no Museu de Arte Contemporânea do Funchal, Alberto Carneiro, ed. Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 2003

ISTO É UMA OBRA DE ARTE







Uma página igual à que agora começaram a ler está exposta, até 14 de Junho, na Galeria Deitch Projects em Nova Iorque, constituindo uma das obras de arte incluídas na exposição do colectivo «The Three», organizada por Adrian Dannatt.

Isto não significa que eu cedi à tão comum ambição dos críticos que se querem transformar em artistas e que, à falta de tempo ou talento para mais, resolvi começar a expor os meus textos com o estatuto de obras de arte. Admito, no entanto, que esta é uma hipótese interessante.

Para já, a explicação para esta surpreendente circunstância é um pouco mais complexa.

«The Three» é o nome dado a um colectivo, composto por três mulheres, manequins profissionais. A sua actividade, assumida no âmbito da radicalização da arte conceptual, é organizada e apresentada por Adrian Dannatt, um crítico de arte («The Art Newspaper») e  «curator» fixado em Nova Iorque. Dannatt declarou-nos que Fernando Pessoa e os seus heterónimos são uma fonte de inspiração, referindo Alexander Search em particular. As exposições do grupo consistem na apresentação dos materiais a seu respeito divulgados nos meios de comunicação social. Entre as obras incluem-se gravações rádio e televisão («Liquid News») da BBC e textos de publicações como a «Talk», a «Parkett» e, agora, o Expresso. A primeira exposição realizou-se na Galeria Percy Miller em Londres (Dez. 2001/Jan. 2002) e, sempre de acordo com as informações prestadas pelo «curator», que servem de base a esta crónica, foram vendidas cinco obras a coleccionadores privados.

A avaliar pelas fotografias agora divulgadas para a promoção da exposição em Nova Iorque as três manequins que compõem o grupo já não são as mesmas mas esse factor não afecta a continuidade do trabalho.

O projecto «The Three» coloca-se de uma forma controversa num lugar de confluência entre o mundo da moda e o mundo da arte, sob a égide dos «mass-media». É uma formulação extrema de algumas hipóteses paradoxais sobre a definição da arte (os limites ou a ausência de limites para aquilo que pode ser considerado uma obra de arte) e sobre as vicissitudes que envolvem a noção de autor e artista. Estamos perante uma contundente demonstração da importância da divulgação mediática no processo de construção e reconhecimento do estatuto e valor das obras de arte. Trata-se, ainda, de uma perversa subversão da função tradicional do «curator», aqui transformado num «public-relations» conceptualmente esclarecido.

A estratégia sugere-nos que, na paisagem cultural contemporânea, os processos de mediação, dada a sua avassaladora preponderância social, prescindem de qualquer objecto pré-existente e tornam-se, eles mesmos, o seu próprio objecto. O que está em causa é, também, o estatuto actual da fama e celebridade e os novos e imensos horizontes de poder dos meios de comunicação social de massas. A obra de arte e o artista seriam, apenas, o que se diz sobre eles.

O projecto reforça a credibilidade ao associar-se a Jeffrey Deitch, «dealer» e «curator», desde há 20 anos, divulgador de novas tendências, responsável por exposição internacionais de referência como, por exemplo, «Post Human» (1992). Para os leitores interessados adiantamos que a página do Expresso igual a esta está à venda por 600 dólares. A galeria é contactável através do telefone 212-3437300 e do fax 212-3432954. Apesar da bem conhecida grande tiragem do Expresso, trata-se de uma peça única nos termos do certificado, único, que será entregue ao comprador com a chancela da Deitch Projects e a assinatura do «curator» em representação do grupo «The Three».

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Alexandre Melo, Crónica ‘Obra de Arte’, in Expresso, Lisboa, 24 de Maio 2003, p. 50.

ALICE NA PRAÇA DE SÃO MARCOS




Takashi Murakami, Superflat Jellyfish Eyes 2, 2003


A Praça de São Marcos é uma das mais belas do mundo, com a característica suplementar de ser incomparável. De dois em dois anos, os habitantes do mundo da arte voltam a poder experimentar o mesmo deslumbramento quando se deslocam a Veneza para visitar a Bienal mais famosa do mundo. Este ano, para a 50ª edição que abriu ao público esta semana, o Museo Correr, ao fundo da Praça, em frente da Basílica, exibe um cartaz anunciando a exposição «Pintura – De Rauschenberg a Murakami – 1964-2003». O título da mostra inscreve-se sobre uma imagem que é o ponto de partida desta crónica.

Um fundo negro sobre o qual se desenham, com irrepreensível elegância gráfica, sobreposições de formas circulares em que podemos identificar olhos estilizados que, aos pares ou isolados, fechados ou abertos, com pestanas ou sem pestanas, flutuam alegremente no espaço, servidos por um generoso reportório das mais alegres e joviais cores, sugerindo o ritmo de uma música benfazeja e o dinamismo de uma dança feliz.

A imagem de que apresentámos uma possível descrição tem por base a obra Superflat Jellyfish Eyes 2, de Takashi Murakami.

Nascido em 1962 em Tóquio, onde vive e trabalha, Murakami tornou-se, ao longo da última década, o mais famoso e internacionalmente consagrado representante do que poderíamos chamar uma corrente neo-pop à moda do Japão que se tem revelado uma das mais animadas fontes de renovação da cultura visual contemporânea. Uma onda em que as referências às artes plásticas são tão importantes quanto as influências e ligações à banda desenhada, ao cinema de animação, às imagens produzidas em computador, ao «design» em geral e ao «design» gráfico em particular. As filiações sociais e culturais alargam-se ao conjunto das formas mais actuais da cultura juvenil no Japão, de que o género «manga» é uma das expressões mais consagradas.

Toda esta rede de conexões estéticas e culturais é bem exemplificada por um outro trabalho de Murakami incluído na mostra. Superflat Monogram, o primeiro filme de animação do autor, foi realizado na sequência do convite dirigido a Murakami por Marc Jacobs, enquanto «designer» responsável pela marca Louis Vuitton no sentido de o artista redesenhar o famoso padrão que ostenta o logótipo LV. O filme conta-nos, com a suavidade da mais delicada animação japonesa, a história de uma jovem e contemporânea Alice que, em frente de uma loja Louis Vuitton, se confronta com uma afável criatura onírica que, voando a partir das letras do logótipo, lhe tira o telemóvel arrastando-a para um vertiginoso mergulho num mundo surreal habitado por maravilhosas variações coloridas do logo LV e dos diferentes tipos de formas, acima referidas, características do trabalho do autor. Uma Heidi que se transforma em Alice para visitar um mundo em que, com a bênção do mais sofisticado «design», se suspende qualquer pretensa contradição entre a imaginação e o «marketing». O trabalho ganha uma acrescida acuidade, em termos de problematizações sociais, numa cidade em que, por todo o lado, as lojas de luxo das grandes marcas convivem com vendedores ambulantes de imitações de produtos dessas mesmas marcas, com grande destaque para a nova geração das malas Vuitton. Digamos que as contingências da economia deram um sentido ainda mais amplo e literal ao conhecido propósito da arte pop de quebrar as barreiras entre arte e a rua e de fazer com que as imagens tradicionais da história de arte se confrontem com a imensa diversidade do universo visual urbano e quotidiano. O filme foi apresentado nas montras Vuitton, em Março deste ano, juntamente com as novas colecções.

A riqueza estética das conexões transdisciplinares do trabalho de Murakami, designadamente a relação entre animação, «design» e artes plásticas em sentido estrito traduzem-se também, aqui, num polémico alargamento da noção de pintura. A intensidade das suas conexões sociais e culturais mais alargadas, nomeadamente com a moda e as culturas juvenis nipónicas, conduz-nos a um outro aspecto que terá sido determinante para o destaque concedido a Murakami na concepção, e desde logo no título, desta mostra.

Trata-se nada mais nada menos que de pôr Murakami a par com Rauschenberg, nome primordial da arte pop e da pop Americana em geral, cujo triunfo na Bienal de Veneza em 1964 marcou o reconhecimento e consagração da deslocação para Nova Iorque do centro de gravidade do mundo da arte.

Com os olhos bem abertos postos nos olhos de Murakami, pretende-se talvez formular um voto para que o mundo da arte continue a saber mover-se e descentra-se, em novas direcções, reconhecendo energias como, por exemplo, as que, através de Murakami, nos chegam do Japão. Veneza visa assim, também e de novo, sublinhar o seu papel geográfico e simbólico de encontro entre o Ocidente e o Oriente.

Mas há ainda uma última crença que parece animar o trabalho de Murakami e que dota o seu trabalho de uma energia positiva muito rara na arte contemporânea: a crença na possibilidade de criar novas formas de beleza que nos propiciem os ritmos e as coras da experiência da alegria. Quero acreditar que não há contradição entre este apelo jovial e a alegria eterna de voltar a ver a Praça de São Marcos.

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Alexandre Melo, Crónica ‘Obra de Arte’, in Expresso, Lisboa, 21 de Junho 2003, p. 40.

PORTUGAL XXI, A PRIMEIRA DÉCADA




João Onofre. Casting. 2000
João Onofre. Pas d'Action. 2002.



Quem procura as rotas e as ruas do mundo da arte tem que estar preparado para responder a uma pergunta: «Passa-se alguma coisa no teu país?». Ou seja, neste caso, em Portugal.

Há 20 anos atrás, contra a multissecular choradeira das lamentações lusitanas – que agora parece estar a ser reabilitada – habituei-me a responder: «Há uma nova geração de artistas que importa conhecer o mais depressa possível porque vão dar que falar por esse mundo fora». Hoje, a resposta é a mesma.

A nova geração, os artistas portugueses do século XXI, faz parte da primeira geração nascida depois do 25 de Abril. Os tempos mudaram. Não se trata do fulgor contestatário com que a geração de 60 enfrentou o cinzentismo fascista. Não se trata do entusiasmo eufórico com que os anos 80 se afirmaram contemporâneos do mundo. Trata-se apenas de assumir a condição de artista, hoje, sem passar pelos traumas nem sequer pela luta contra os traumas do ancestral complexo de inferioridade nacional.

Os artistas de que falo, todos com menos de 30 anos, nomes como, entre outros, João Onofre, Filipa César, Vasco Araújo, João Vilhena ou João Pedro Vale, estudaram, viajam, vivem, trabalham ou expõem, naturalmente, em Portugal ou no estrangeiro. Desde os anos de formação até às exposições individuais que começam a realizar foram capazes de esboçar territórios próprios e afirmar linhas de trabalho específicas que dão já, tanto quanto um jovem artista o pode fazer, as garantias de competência profissional e autonomia de imaginário que são o mais seguro indício de que podemos falar de autores.

Em 2001, aos 25 anos, João Onofre realizou a sua primeira exposição individual. O facto pouco teria de extraordinário não se desse o caso de esta exposição ter lugar em Nova Iorque, na Galeria I-20 em Chelsea, e ter sido objecto de um acolhimento crítico positivo com direito a recensão da prestigiada revista «Artforum» (Dezembro 2001). João Onofre nasceu e trabalha em Lisboa, estudou pintura em Belas Artes no Porto e em Lisboa e fez mestrado no Goldsmith em Londres. Como é que aquilo que, para sucessivas gerações de artistas portugueses, era um objectivo final quase inatingível foi aqui um ponto de partida. Como é que se chega, tão depressa, a Nova Iorque?

A história começa com a apresentação no «stand» da Galeria Presença na ARCO (Feira de Arte Contemporânea) em Madrid, 2000, de um vídeo que aí foi visto por Harald Szeemann, que o escolheu para estar presente na Bienal de Veneza, em 2001, por ele dirigida. Seguiram-se múltiplas presenças individuais e colectivas, em galerias e museus, um pouco por todo o mundo.

O primeiro trabalho de João Onofre a fixar a minha atenção foi uma instalação vídeo construída a partir de uma breve sequência de Martha, um dos terríveis filmes de Fassbinder. Os protagonistas cruzam-se na rua e, como tantas vezes já sucedeu a tantos de nós, pouco depois de se cruzarem, voltam-se para trás, ao mesmo tempo, e os seus olhares encontram-se durante um período de tempo brevíssimo, mas que torna esse encontro de olhares irrevogável.

É como se tivessem sentido, sem chegar a ter disso uma consciência clara, que já se tinham cruzado. O primeiro momento é já uma reminiscência. João Onofre corta, repete, faz «loop». Faz um nó com estes olhares e com estes corpos. Instaura o tempo como nó, e no modo como instala a peça, num «écran» em torno do qual o observador deve circular, integra-nos também a nós nos nós deste tempo, destes corpos, destes olhares.

O seu trabalho mais conhecido, o vídeo Casting (2000), apresentado em Veneza, mostra um conjunto de jovens manequins que, um após outro, vão dizendo, de frente para a câmara, uma frase de Ingrid Bergman no final do filme Stromboli de Rossellini: «Che io abbia la forza, la convinzione e il coraggio». O contraste entre a carga política e dramática da referência e a circunstância mundana de um «casting» criam uma ambiguidade quanto ao sentido da mensagem e uma expectativa paradoxal quanto ao desfecho da situação.

Do que se trata aqui, como noutros trabalhos do autor, é de pôr e expor os corpos, e os seus precários sujeitos, dentro do estrito e estreito enquadramento de um nó de tempo que se repete sem escape nem redenção.

Um dos mais fortes exemplos deste efeito de quase cruel sobre-exposição encontra-se na Pas d’Action (2002), apresentada pela primeira vez o ano passado na Feira de Arte de Basileia.

Neste vídeo vemos um grupo de jovens bailarinos que, perante a impiedosa imobilidade da câmara, se tentam manter na posição de «pontas» durante o máximo de tempo possível até se deixarem «cair».

Numa generalização especulativa diríamos que estamos perante uma reflexão sobre a noção de identidade. A própria juventude dos participantes remete para o processo de construção social da identidade. Existimos hoje em sociedade porque e se temos a «força» de nos expormos sujeitando-nos aos exercícios de representação que nos são requeridos e ao frio escrutínio e selecção realizado pelos espectadores que são, afinal, todos os que nos rodeiam. A situação de um artista, um novo artista, é um caso exemplar. O jovem artista apresenta a sua candidatura ao reconhecimento social do estatuto do artista, armado da «coragem» de exibir os produtos da sua imaginação. Compete à nossa atenção qualificar a justeza e o valor das suas «convicções».

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Alexandre Melo, Crónica ‘Obra de Arte’, in Expresso, Lisboa, 15 de Agosto 2003, p. 24. 

ESTÁ A OLHAR PARA ONDE?



Filipa César. Berlin Zoo, Part02, 2001-2003


Quando olho para alguém tento compreender o seu olhar. Quando olho para o trabalho de um artista vejo uma determinada realidade tal como ela foi olhada, ou seja, produzida, por esse artista e, ao mesmo tempo, através desse produto que é a obra de arte, aprendo a conhecer o olhar do artista. A especificidade desse olhar, se eu a apreender, transforma o artista num autor, único, mestre de um olhar particular cujas invenções passo a poder partilhar. É esse o maior prazer implícito na descoberta de um novo artista.

Filipa César é um dos nomes fortes da nova geração de artistas portugueses para o século XXI, os artistas da primeira década do novo século. Nasceu em 1975 no Porto onde iniciou os estudos que prosseguiu em Lisboa e Munique para onde foi viver há quatro anos. De Munique seguiu para Berlim onde hoje vive e trabalha. O seu trabalho foi apresentado em exposições colectivas em Milão, Berlim e São Francisco. A primeira individual na Galeria Cristina Guerra, em Lisboa, foi uma das revelações da última temporada. Já este ano recebeu o Prémio União Latina. Filipa César faz parte da primeira geração de artistas portugueses que são naturalmente cosmopolitas: circulam e fazem circular o seu trabalho pelo mundo sem sentimentos de exílio, desforra ressentida ou ultrapassagem eufórica em relação ao torrão pátrio.

Se quisermos um tema para começar a falar do trabalho de Filia César podemos dizer que o tema é o olhar.
É um dos momentos mais voluptuosos da experiência cinéfila. Uma das formas do suspense que alimenta o olhar do «voyeur». O momento em que uma porta se entreabre ao cimo de umas escadas, ou range ao fundo de um corredor. Ou a câmara salta para dentro de um quarto com a promessa de lhe revelar os segredos. O que é que se passa lá dentro?

Vamos imaginar que este momento se prolonga através de uma interminável sucessão de situações de entrada em espaços dos quais nada chegamos a descobrir porque entretanto já estamos a entrar num outro espaço. Foi isto que em Untitled (Twirler) (1999) Filipa César imaginou recorrendo a uma montagem em «loop» de uma série de sequências de vários filmes.

A eternização de um suspense deste tipo instaura um ritmo alterado de percepção que gera um efeito de metamorfose: os espaços começam a transformar-se uns nos outros. Em Untitled (2002), um infindável «travelling» revela-nos a metamorfose entre a coberta desalinhada de uma cama e uma tranquila paisagem natural.

Mas há outros trabalhos em que é o olhar das pessoas que se torna o objecto directo da atenção da câmara num exercício próximo de uma antropologia do olhar.

No vídeo Letters (2000) observamos personagens anónimos que se sucedem e substituem numa estação de correios, deixando nos «guichets» as suas cartas e deixando-nos a nós a possibilidade de lhes inventar um destino, um romance, um filme. Um momento comum do quotidiano transforma-se numa situação de suspense.

A análise dos olhares e comportamentos de quem espera é particularmente rico no vídeo Lull (2002) que encena com obsessivo pormenor – extensivo à banda sonora – os movimentos de um conjunto de pessoas que se confrontam e sucedem numa sala de espera. Que fazemos quando esperamos? O que vemos quando não olhamos para nada? Em que pensamos quando não pensamos em nada?

Há quem diga que não se pode não pensar, tal como não se pode não ver, mesmo de olhos fechados.

O que vemos enquanto pensamos? O que é que pensamos quando vemos uma obra de arte? O que é que vemos quando pensamos numa obra de arte?

Somos responsáveis pelo uso do nosso olhar. A realidade que vemos e vivemos é o produto do trabalho realizado pela nossa imaginação a partir do que lhe oferecemos. Por exemplo: uma obra de arte, o produto do olhar de um artista, o olhar vivo de alguém.


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Alexandre Melo, Crónica ‘Obra de Arte’, in Expresso, Lisboa, 20 de Setembro 2003, p. 44.

COMO É QUE SE VÊ UMA VOZ?




Vasco Araújo. Recital. 2002


Podemos considerar que «ter visões» ou «ouvir vozes» são experiências que pertencem a um mesmo, eventualmente aliciante, horizonte de possibilidades. Julgo, no entanto, que um maior e mais raro desafio corresponderia à ambição de «ver vozes».

O universo da ópera é, com certeza, um dos lugares mais apropriados para explorar esta hipótese. O enquadramento arquitectónico (as grandes casas da ópera), cénico (no palco, na plateia, nos camarins ou nos camarotes nunca deixamos de estar em pleno teatro) e cenográfico (entre a memória dos luxos de outras eras e as invenções futuristas de sucessivas actualidades) só por si só já proporcionam à música e às vozes uma imponente moldura.

Para além da moldura, a figura central em torno da qual se decide a questão da visibilidade da voz é, necessariamente, a figura da «diva»: a imagem do corpo que transporta a voz, se é que não é, pelo contrário, a voz que transporta o corpo, ou os corpos, mas isto é uma questão que terá de ficar para os especialistas.

Esta dúvida relaciona-se com uma instabilidade de fundo que aflige a figura da «diva» e que lhe desenha uma aura muitas vezes maldita, cujo poder de atracção ou a simples proximidade são susceptíveis de gerar vertigens.

O corpo ou o rosto, as mãos, os lábios ou os olhos da «diva» são «mais» que a voz, porque lhe dão uma «imagem», mas serão para sempre menos que a voz, porque são «apenas imagens». Não são a voz.

Questões como estas são tratadas, por exemplo, e é um dos melhores exemplos que conheço, no cinema de Werner Schroeter, designadamente nos seus filmes «sobre» as «imagens» de Maria Malibran ou Maria Callas.

São também questões como esta que constituem uma das melhores pistas de aproximação ao trabalho de Vasco Araújo, um dos nomes mais convincentes da nova geração de artistas portugueses da primeira década do novo século.

A primeira exposição individual no estrangeiro teve lugar na Galeria Yuill/Crowley, em Sidney, na Austrália, em paralelo à participação na Bienal de Sidney, 2002, a convite do organizador, o inglês Richard Grayson. Não sei se devemos atribuir algum simbolismo especial a esta presença na Austrália, mas os antípodas parecem um lugar propício (sempre é o lugar que fica mais longe de Portugal) para sublinhar um trajecto internacional que se começou a desenhar quando a «curator» espanhola Rosa Martinez escolheu a peça «Diva – A Portrait» para integrar a exposição «Transsexualexpress» (Barcelona, Budapeste, Corunha). Esta instalação é uma simulação de um camarim de ópera com todos os adereços habituais e mais alguns objectos masculinos que introduzem um elemento de ambiguidade sexual. Nas paredes, uma série de retratos do autor posando como «diva».

O universo da ópera é a referência central do artista, trabalhado sob múltiplas formas, que incluem o vídeo, a fotografia, a escultura e um trabalho específico sobre o som, dando origem, nalguns casos, à criação de instalações que nos aparecem como salas ou ambientes cenográficos exaustivamente elaborados. Um exemplo recente é a instalação «Recital» (2002), que recria a atmosfera de uma sala de concerto e, na complexa multiplicidade dos elementos que a compõem, funciona como uma espécie de análise estrutural – desconstrução e reconstrução – das várias instâncias de criação do significado que se articulam em torno das imagens, vozes, sons e texto do espectáculo operático.

Vasco Araújo, que estudou, vive e trabalha em Lisboa, marcou presença com uma performance de grande efeito espectacular, na inauguração da Galeria Filomena Soares (2001), em Lisboa. Esta temporada, o autor estará também a trabalhar em residência em Houston, Estados Unidos da América. Trabalhos mais recentes integraram a exposição «Melodrama», itinerante em Espanha (Vitoria, Granada, Vigo), e foram apresentados este ano em Istambul e no Bard College (Estado de Nova Iorque). Novas obras podem ser vistas no Project Room da próxima Feira de Arte de Colónia ou, desde já, na exposição correspondente à atribuição do Prémio EDP Revelação 2002, recentemente inaugurada na SNBA.

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Alexandre Melo, Crónica ‘Obra de Arte’, in Expresso, Lisboa, 18 de Outubro 2003, p. 42.