CONVERSA - MERCADO DA ARTE


Artes&Leilões
Outubro-Novembro, 1989
António Bacalhau - José Sousa Machado



Artes & Leilões – Na tua perspectiva como é que se articula o conceito de mercado nacional com o de mercado internacional?

Alexandre Melo – O problema da escala geográfica dos mercados é o problema das fronteiras espaciais do reconhecimento de um determinado valor. É uma questão fulcral, porque sempre que quisermos comparar preços e valores de obras de arte não chegamos a nenhuma conclusão se não encontrarmos em linha de conta com a dimensão geográfica. Isto é, por exemplo, um artista que só é famoso em Portugal, que não tem sequer cotação fora do país, pode ter preços mais altos, aqui, do que um artista cuja obra e a cotação são reconhecidas em todo o mundo. Há um mercado internacional, hierarquizado, e há mercados regionais, nacionais ou não, também eles hierarquizados e que podem ser mais ou menos autónomos em relação ao mercado internacional.

A.L. – Em termos práticos, do ponto de vista dos compradores, como é que o problema pode ser encarado?

A.M. – Há duas atitudes possíveis. Numa perspectiva mais ambiciosa, mais dinâmica e internacional, importa reforçar a articulação do mercado nacional com o mercado internacional e impõe-se apostar nas obras com um horizonte de afirmação e um nível de reconhecimento mais vasto. Numa perspectiva mais limitada e imobilista, é também possível a atitude oposta. O comprador confina-se aos limites do seu meio e opta pelas obras com as quais se identificam os círculos sociais em que projecta a sua imagem e aspirações, sem se preocupar com o desfasamento em relação à situação cultural mais global.

A.L. – Ouve-se frequentemente dizer que em Portugal se vive ainda na pré-história do mercado da arte. Mas simultaneamente nos últimos anos vem-se manifestando uma grande animação e entusiasmo no mercado. Será que esta animação pode vir a revelar-se artificial e a gerar equívocos em termos de qualidade?

A.M. – Há de facto uma assinalável animação e dinamismo. Embora, quase tudo continue a passar-se a uma escala bastante reduzida. A abertura ao confronto com o exterior e às tendências mais actuais continua a ser limitado, embora esteja a aumentar, e o nível de formação e de informação dos agentes culturais e da opinião pública, em relação à arte contemporânea, continua a ser muito pobre.
Estas limitações, ao conjugarem-se com uma procura muito dinâmica, podem produzir efeitos negativos, designadamente uma degradação ao nível de qualidade de algumas das obras oferecidas no mercado, ou um processo inflacionista descontrolado que faça subir de forma imponderada os preços dos artistas mais consagrados. Mas não é fatal que assim aconteça. À medida que aumenta a circulação e a informação o risco de efeitos perversos diminui porque aumenta o leque de obras e cotações dentro do qual se estabelecem as comparações. Mesmo para quem prefira valorizar contextos locais, o aumento da informação, ao permitir multiplicar os confrontos, contribui para moderar os aumentos especulativos e para aumentar o nível de exigência de qualidade.

A.L. – A efectiva existência de um mercado de arte pressupõe também que exista uma certa garantia e segurança do valor. Se alguém compra uma obra a um determinado preço tem que ter a convicção de que salvo situações excepcionais aquela obra vale o que custou quando eventualmente se dispuser a vendê-la. Será que a situação portuguesa oferece esse tipo de segurança?

 A.M. – É difícil generalizar a esse respeito porque tudo depende das características concretas dos agentes envolvidos no processo, ou seja, no caso, os galeristas e os coleccionadores. Em Portugal não há muitos galeristas profissionais mas há alguns. Quando falo de galerista profissional, independentemente da filiação estética e inserção social, refiro-me a alguém que assume e defende a obra dos artistas que representa numa perspectiva de carreira a longo prazo e de promoção estratégica. Isto pressupõe uma rede sólida de relações sociais e institucionais a partir da qual se constitui um núcleo de coleccionadores. E traduz-se num escrúpulo de gestão de preços, das compras e das vendas que permite, salvo situações anormais, assegurar a cotação de um artista. Quanto mais profissionais forem os galeristas, neste sentido, maior será a segurança.
Vendo agora a questão pelo outro lado, pelo lado do coleccionador, é evidente que para que existam galeristas profissionais é preciso que existam coleccionadores a sério. Isto é, coleccionadores que têm uma ideia de colecção e uma perspectiva a longo prazo. Que compreendam que a compra de uma obra é também uma tomada de posição cultural e um ponto de vista sobre o trabalho de um artista e que isso lhes cria responsabilidades em termos de coerência, continuidade e clareza de opções.
Não se trata apenas de comprar e vender ao sabor das conveniências, do acaso ou do capricho. À medida que se forem afirmando e distinguindo os galeristas profissionais e os coleccionadores a sério, e em que eles forem servindo de ponto de referência para o conjunto do mercado, irão diminuir os riscos de quedas ou quebras.

A.L. – Nessa perspectiva o galerista surge como uma espécie de gestor de carreira do artista. Mas o que também parece acontecer, em contraponto ao aumento do número de galerias, é a vontade manifestada por muitos de preservar uma certa liberdade e de serem eles próprios a gerir as suas carreiras sem assumirem compromissos com galerias.

A.M. – Cada artista decide qual a forma de inserção social e económica que lhe interessa para o seu trabalho. O meio artístico e o mercado comportam a existência e convivência de diferentes modalidades. Penso no entanto que com a maior parte dos artista que se preocupa em gerir as suas próprias carreiras, o que está em causa não é tanto uma exigência abstracta de liberdade mas sim uma aguda consciência do que entendem dever ser a difusão do seu trabalho e uma certa desconfiança em relação à capacidade dos galeristas para a assegurar. Em muitos casos os artistas têm um grau de informação estética e de consciência estratégica mais elevados que o dos próprios galeristas. Nesse medida é normal que queiram intervir na gestão da sua própria carreira. Penso que também aqui a situação se modificará se aumentar o nível de profissionalismo dos galeristas.

A.L. – Será que em Portugal existe já uma nova geração de coleccionadores englobando pessoas de rendimentos médios e motivadas para a arte contemporânea?

A.M. – Naturalmente não há informações exactas disponíveis até porque a tal animação do mercado é um fenómeno recente. Julgo porém que em relação à arte contemporânea há dois tipos de coleccionadores. Por um lado, coleccionadores com colecções iniciadas há já vários anos, com um poder de compra mais forte, que por razões de sensibilidade ou maior informação – nacional e, nalguns casos, também já internacional – começaram a voltar as suas atenções para a arte contemporânea e têm a possibilidade de constituir colecções consistentes nessa aérea. É um fenómeno minoritário mas que poderá alargar-se a partir do momento em que comece a haver um reconhecimento público generalizado da valia de escolhas que, porque mais contemporâneas, tendem ainda a aparecer, aos olhos do coleccionador tradicional, como demasiado arriscadas. Por outro lado, há uma vaga mais recente de coleccionadores que começaram a comprar ao mesmo tempo que os artistas, cujas obras adquirem começaram a expor e que por assim dizer acompanham, também em termos de cumplicidade estética e cultural, a evolução das suas carreiras. São pessoas que não têm um poder de compra muito elevado mas que têm um papel fundamental enquanto base social e cultural de apoio e enquanto germe de uma futura geração de coleccionadores mais informada e mais sintonizada com a criação contemporânea.

A.L. – Ainda no âmbito das colecções e coleccionadores, qual é ou deveria ser a situação, em Portugal, no que diz respeito aos coleccionadores institucionais, seja o estado as fundações ou outras entidades?

A.M. – Uma resposta exacta exigiria uma análise caso a caso. Generalizando, diria que em primeiro lugar, o número de coleccionadores institucionais importantes, quer em termos de montante de compras quer em termos de prestígio cultural, é bastante reduzido. A situação alterar-se-á à medida que as instituições, públicas ou privadas, forem compreendendo até que ponto a dimensão cultural é importante para a valorização e articulação social das suas actividades. Em segundo lugar, quase todas as colecções institucionais – a recente colecção da Fundação Luso-Americana é talvez a única excepção – sofrem de dois defeitos: a falta de uma ideia ou critério estruturador, e a falta de uma perspectiva de longo prazo com a consequente ausência de regularidade c continuidade de aquisições. Estas faltas acarretam dois tipos de inconvenientes. Por um lado determinam um tipo de intervenção casuística, aos repelões, com um timing arbitrário e uma lógica imprevisível. Por outro lado inspiram uma abrangência sem limites ou um ecletismo sem princípios que acabam por transformar as supostas colecções em aglomerados heteróclitos de peças cuja reunião não tem maneira de fazer sentido. Esta situação é tanto mais grave quanto as colecções institucionais, pelo seu peso económico e visibilidade, deveriam constituir um exemplo para o mercado no seu conjunto. Se na diversidade das suas opções estéticas e culturais as instituições em causa adoptassem para as suas colecções uma ideia, um conceito, um critério, uma perspectiva estratégica, em tudo a sua acção poderia ser muito importante para a construção e amadurecimento do mercado da arte em Portugal.

A.L. – Todo este conjunto de insuficiências e limitações que temos vindo a apontar aos coleccionadores portugueses, e que estão muito relacionados com a falta de informação, não poderão levar à formação de colecções que sejam autênticos “elefantes brancos”?

 A.M. – Existem de factos supostas colecções que não se podem mostrar fora do círculo familiar e ainda outras colecções que com o passar do tempo vão descobrindo que nunca o foram. Esta situação está relacionada com um fenómeno assaz chocante que é a massiva falta de informação sobre a arte contemporânea. Mesmo sem falar da inexistência de grandes ou pequenas exposições, retrospectivas ou de actualidade. Não existe sequer um centro de documentação, uma biblioteca ou uma livraria – já não digo mais que uma – onde se tenha acesso de forma minimamente sistemática e actualizada a livros, catálogos ou publicações periódicas sobre arte contemporânea. Este deserto tem consequências não tanto ao nível do meio artístico propriamente dito – que, por vias internacionais, tem acesso à mesma informação que o meio artístico de qualquer outro país – mas sobretudo ao nível da opinião pública em geral e da investigação sobre arte contemporânea. Esta é, em termos práticos, impossível em Portugal, por falta de tudo. Quanto à opinião pública média o problema que se põe não é já o de se identificar ou não mas o de virtualmente não ter qualquer ideia ou imagem do que se passou no últimos 30 anos no campo das artes plásticas.

A.L. – Haverá a possibilidade de no mercado de arte em Portugal, a breve prazo, se vir a dar uma queda, um crash, semelhante ao que ocorreu no princípio da década de 70?

A.M. – Julgo que, apesar de todos os problemas e limitações de que viemos falando, existem agora mais elementos moderadores e parâmetros de referência mais sólidos do que existiam nessa altura. O grau de profissionalismo dos vários agentes envolvidos é apesar de tudo mais elevado e não creio que as manobras especulativas possam atingir uma dimensão catastrófica. Poderá haver altos e baixos, aumentos ou quebras da procura, dependentes das oscilações de conjectura económica mas não se me afigura que, até ver, o mercado da arte esteja a alimentar em si mesmo factores ou dinâmicas autodestrutivas. Por outro lado podemos também considerar que uma ligeira recensão ou uma quebra da euforia – se é que se pode falar de euforia, parece-me um pouco exagerado – podem também ter um efeito regulador, moderador, selectivo. Permitindo distinguir entre o profissionalismo e o trabalho sólido e facilidade inconsequente de quem aproveita os bons momentos para empolar operações especulativas.

A.L. – Sempre que se fala das relações entre e a arte e economia, de mercado da arte, surgem acusações relativas à massificação da relação com as obras de arte e da sua consequente banalização e de valorização em termos de sentido e de relação profunda com o observador. Será que este processo é inevitável?


A.M. – Actualmente existe uma crescente integração da criação artística na lógica económica mais geral das sociedades, o que implica uma certa mercantilização, mediatização e massificação da circulação e da distribuição das obras de arte. Mas isso não impede que continuem a ser possíveis diferentes tipos de relacionamento. Se eu faço uma viagem de 15 dias ao estrangeiro e aproveito para visitar seis exposições ou museus, por dia em 12 cidades diferentes é natural que no meu regresso tenha um sentimento de massificação e que me queixe de uma quebra da intensidade da minha relação com cada uma das obras que olhei. Mas ninguém me obriga a fazer isso. Posso dedicar o mesmo tempo a ver apenas uma exposição ou até apenas uma obra. A escolha é sempre do observador e os diferentes tipos e níveis de relacionamento não são sequer incompatíveis. Tudo depende, em cada situação, do objectivo e da modalidade de atenção.


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"Mercado da arte : Conversa com Alexandre Melo". in Artes & leilões, Lisboa, Out.-Nov. 1989, p.12-16

A INOCÊNCIA DO DETECTIVE


Jorge Molder
The Secret Agent, 1991






A relação com referentes culturais exteriores, literários em particular, tem sido uma constante do trabalho de Jorge Molder que, aliás, trabalhou frequentemente em colaboração directa com escritores e artistas plásticos. Servem de exemplo: a série “Uma exposição”, a propósito de Edward Hopper, em colaboração com Joaquim Manuel Magalhães e João Miguel Fernandes Jorge (1980); a série “Face lavée d’oubli” sobre um poema de Saint-John Perse (1984); a série “O Fazer suave do preto e branco” realizada em paralelo a uma série de desenhos de Jorge Martins (1985); a série “Cabinet d’amateur” acompanhada de pinturas de Gäetan (1988); ou ainda a série “Uma narrativa”, baseada em Hermann Broch (“Die schuldlosen”) e destinada a acompanhar uma encenação de “Zerlina”. Mais recentemente duas séries reportáveis a Joseph Conrad deram origem ao livro “Joseph Conrad” da colecção “Lieux de l’écrit” com texto de Jacques Darras (1991) e ao álbum “The Secret Agent” (1991).

A frequência deste tipo de articulações não significa, porém, que as fotografias de Molder mantenham uma relação ilustrativa com os materiais com que convivem. Antes dá testemunho da pertença do trabalho de Molder a uma universo cultural complexo e multifacetado, que se situa para além das estritas e estreitas fronteiras da fotografia entendida na sua acepção mais tradicional, e se projecta em direcção a zonas de convívio privilegiado, por exemplo, com a poesia ou a filosofia. Dir-se-ia que a multiplicidade de determinações culturais implícitas numa imagem proporciona ao autor uma margem acrescida de distanciamento, um mais vasto terreno de jogo.

De igual modo modo, quando se trata de fotografar uma paisagem, uma casa, um objecto, isto é, quando o referente é o chamado real, o que prevalece não é a vocação documental da fotografia.

O olhar de fotógrafo de Molder como que se suspende antes de chegar ao momento em que o real se reproduziria com a consistência plena da sua vulgaridade. Por isso as fotografias de Molder são capazes de sugerir a velada zona profunda de imponderáveis que o real-já-dado pressupõe, oculta e ingloriamente procura esconjurar.

Pelo contrário, dir-se-ia que a multiplicidade de virtuais determinações de uma imagem proporcionam ao autor uma margem acrescida de distanciamento, um mais vasto terreno de jogo. Os referentes reconhecíveis, ou adivinháveis, cercam cada imagem de um conjunto de sentidos e significados possíveis, mas que permanecem sempre como sentidos suspensos. Porque o modo de fotografar de Molder consiste precisamente em destacar de um fundo, em arrancar a uma atmosfera, determinados objectos, elementos, ângulos de visão, que, sem deixarem de reflectir essa atmosfera e de para ela remeter, se constituem em imagem autónoma, isolada, com um peso e uma eficácia próprias. As imagens de Molder escapam assim quer à ilustração, quer à arbitrariedade. São ao mesmo tempo o sintoma de uma atmosfera genérica e o centro de um mistério particular. No centro de um quadrado negro dois aparos sob um foco de luz, ou um embrulho atado com duas fitas brancas (fotografias da série Joseph Conrad) tanto podem ser dados de uma intriga como enigmas abstractos. É o que chamaríamos a vocação narrativa suspensa, ou virtual, das imagens de Jorge Molder.

Esta ambivalência é inerente à ideia de base do que é para o autor a fotografia.

“A fotografia tem um lado limitativo, e ao mesmo tempo nobre, porque à partida é algo feito a partir de outra coisa. Vive de um mundo que lhe é exterior. Mas é o fotografo, através da sua interpretação, que constrói esse mundo exterior. Todas as minhas imagens correspondem à minha forma de me relacionar com a fotografia. Tento elaborar um pequeno sistema de linguagem submetido à minha ideia do que é fotográfico: a luz como matéria que constrói as coisas, a presença física dos objectos na imagem e o lado icónico dessa mesma fotografia. Estive sempre muito próximo da poesia. Isso marca o que faço, pois tento sempre dar uma marca poética à imagem, tal como um poeta procura a sonoridade da palavra”.

A série The Secret Agent – neste sentido prenunciada pela série The Portuguese dutchman (1990) – desenvolve até às última consequências a vocação narrativa latente no trabalho de Molder. Ao mesmo tempo prolonga uma prática do auto-retrato que neste caso pode ser lida como uma alegoria: o fotógrafo – o autor – como “agente secreto”.

O livro organiza-se segundo uma série de sequências ou capítulos, comparáveis à estrutura de um romance policial. Apresentação do “herói”, o “agente-secreto”, auto-retrato enquanto detective. Os objectos que configuram o caso, de que se destacam uma caixa fechada e uma tina de vidro. As acções e investigações do detective. Exploração das possibilidades da caixa. Experiências com a tina da vidro, de que acabará por resultar a revelação de uma imagem.
A imagem a que se chega, no final, é a do auto-retrato que abre o volume. E na última fotografia duas mão seguram um livro aberto em que se vê esse mesmo auto-retrato e se lê o título “The Secret Agent”. O círculo fecha-se.

As potencialidades para uma leitura em termos de narrativa policial são óbvias, embora menos lineares e mais abertas do que esta descrição deixa entender. Múltiplas variantes se poderiam esboçar. As variações são, de resto, suscitadas e estimuladas pelos diferentes conjuntos e organização sequencial das fotografias escolhidas para cada exposição. Fora do esquema, naturalmente mais rígido, do livro, cada imagem, integrada num conjunto mais restrito e numa sequência mais flexível, vê aumentadas as possibilidades de projecção do seu mistério particular. Ao mesmo tempo que pode insinuar novas pistas de aproximação.
Em todo o caso, um conjunto de questões persistem sempre e constituem o próprio fundo da investigação deste agente secreto que, não por acaso, é um fotógrafo. Questões que se prendem, portanto, com os temas da autoria, da verdade e da culpa. O fotógrafo é o autor da fotografia, mas quem é o autor da imagem que o fotógrafo capta, revela e mostra?

Nos tempos em que ainda era Deus que tinha criado o mundo, o fotógrafo estaria destinado a uma função religiosa. Uma função de revelação. Mas talvez por isso mesmo nesta altura ainda não havia fotografia. Será então que foi a fotografia que destituiu Deus, assim deixando o mundo ao abandono, privado de um princípio de bem? Talvez por isso o fotógrafo se tornou detective. Para investigar a razão de ser do mundo. Conferir a realidade como fiscal tendencialmente corrupto.

O detective investiga um caso. Procura o culpado. Mas se o caso for o próprio mundo, este mundo abandonado por Deus, não há fio condutor nem parábola redentora que possam guiar e salvar o detective. Ele terá de inventar o seu próprio caso e construir a sua própria história. Se a história não for verdade, será ele o culpado. Mas uma imagem, tal como o mundo ou a realidade, nunca podem ser verdade. A verdade é uma categoria que não se lhes aplica. Portanto, o detective, o fotógrafo, o autor, é sempre o responsável, o culpado. É aqui que o “agente secreto” vai recorrer ao seu último truque. Durante o processo de investigação, o detective passa de investigador a investigado. No final das suas pesquisas e experiências descobre a sua própria imagem: resolve então desistir da responsabilidade e da culpa de sujeito e de autor. Desliza para o lado do objecto. Joga o jogo da confusão das identidades. E deixa-nos a nós, observadores, na posição de detective. Deixa nas nossas mãos uma imagem de si próprio e o incontornável mistério particular de cada imagem. E a responsabilidade de inventarmos nós uma história e a ameaça de sermos nós os culpados.


A imagem continua a brilhar na inocência do seu mistério, e o resto é a nossa culpa.

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Alexandre Melo, "A inocência do detective", in Arte & Leilões, N. 15, Junho-Setembro 1992, p.42-46.

DOSSIER PORTUGAL - PEDRO CASQUEIRO



Pedro Casqueiro
Flash Art, 1988



Pedro Casqueiro é praticamente da mesma idade (cerca de trinta anos) que os outros artistas que já aqui apresentamos, sem nunca deixar de os aproximar e de sintetizar o seu trabalho num resultado que é final mas também aberto e equilibrado. Durante a criação de cada pintura, Casqueiro tenta diferentes situações até encontrar a que, encaixando-se na eficacidade do todo, permite um maior grau de ambiguidade e surpresa. A mesma lógica se aplica à utilização das cores. As combinações funcionais são escolhidas pela sua capacidade de integrar disposições inesperadas, susceptíveis de produzir estímulos visuais inovadores. Esta estratégia deu lugar, no início da década, a pinturas muito trabalhadas, que juntavam formas figurativas e geométricas, sobreposições e montagens, uma grande diversidade de cores, espaços e partes componentes. Nos seus trabalhos mais recentes, a complexidade mantém-se mas existe um maior controlo sobre as partes usadas. Passou-se da profusão à contenção. É sempre uma questão de descobrir, n aquilo que fazemos, aquelas formas justapostas, choques e conciliações que nos permitirão continuar a funcionar, e garantir que o acto de funcionar será sempre um acto aberto.

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Alexandre Melo, “Dossier Portugal”, in Flash Art, Milão, nº138, Jan./Fev.,1988.

PEDRO CASQUEIRO: O PRINCÍPIO DA DESMARCAÇÃO




Sem Título, 1984


Uma grande pré-meditação é uma maneira bastante sentida de se pôr a ocupar a superfície de um quadro. Com o tempo acabou-se por ser conceptual e prescindir de pincéis e tintas. Tinha graça, mas menos garrida.
Fazendo ao contrário, lidamos com a gestão sensível de desequilíbrios. Reversíveis até um ponto, sei lá, intuito – porém visível e evidente – de equilíbrio. Um ponto – que eu acho equilibrado – de inédito. Chegamos a uma altura em que não nos apetece lamber mais e paramos.
O primeiro olhar pode ser fútil; dedo displicente. A chamada responsabilidade vai sendo criada à medida. Muito de ligeiro. Isto podia ser uma descrição dos quadros de Pedro Casqueiro. Não é fácil dizer como são: dar uma ideia. É que são quadros. Decidem-se na maneira de por e dispor as coisas com que se organiza um quadro: cores, formas, objectos, insinuações de espaços.

Por e dispor

Alinhamos então quatro maneiras de por e dispor. Ou seja, expor; ou também, ver. Umas em cima das outras – Pintar um retrato em cima de uma convenção social, um desenho escuro em cima de um ideal bondoso, uma figura em cima de um fundo que estava ali mesmo a pedir para condizer. Sobreacumulação parasita. Tiques de redundância e ilustração (Serve também para conjuntos de obras em que há quem chame coerência a um acrescentamento de mesmidades sem crescendos emotivos nem intrigas ficcionais).
Laivos de acumulação indecidida de elementos foram visíveis nalguns dos quadros que Pedro Casqueiro expôs no Café-Concerto. Mais ainda, de forma sobrecarregada como foram expostos. Umas ao lado das outras – Onde parece que um quadro não está acabado, ou que é uns tantos, meios acabados ou em meio. Cada coisa tem o ar de estar para ir à sua vida e as cores não se conhecem umas às outras: nem de vista (Em obras, no sentido amplo, descamba-se naquelas sucessões de fases em que ninguém ressente um perene efeito de assinatura).
Na exposição de Setúbal, Pedro Casqueiro rarefez o espaço de alguns quadros para abrir zonas planas respiradas, mas nem sempre elas se entendiam bem com os contornos das formais mais densas. Atitudes assim não é que sejam más. Melhor é, contudo, que sejam péssimas: expressão que hoje em dia já não encerra um juízo de valor. Passemos às outras maneiras; aqui mais próximas.

Pegadas

Coisas despegadas umas das outras – (Cf. Sérgio Pombo). Os elementos afastam-se destacam-se de um fundo. Parece que ficam sós e tristes. Mas precisam-se: como pegadas de bicho magoado, incertos passos. Estão ali para olhar uns para os outros, como os portugueses à janela quando é sempre fim de tarde.
Remete para afastamentos assim a composição dos últimos quadros de Pedro Casqueiro (à entrada do Frágil), onde pela primeira vez o tratamento do fundo – que emerge – tem papel fulcral. Mas é ainda outra a maneira mais corrente conseguida nas pinturas de Pedro Casqueiro.  Coisas pegadas uma das outras – Ainda uma cor (é um exemplo) está a virar a cabeça para trás – porque ouviu chamar – já outra lhe pôs a mão no ombro. Os passos não têm direcção. Ritmo será, se calhar dançavam, mas não se encaminham. As coisas estão todas pegadas mas não é para se redundarem, nem arredondarem, é para puxarem, cada uma para onde compete.

Linhas de desmarcação

Em Setúbal na noite de inauguração da exposição, Pedro Casqueiro tinha pintado de vermelho ou branco algumas madeixas de cabelo.
Os bandos mundanos passam as noites a querer ir no mesmo carro para sítios diferentes. Quando se perdem vão sozinhos para sítios mesmos. Tratamos de um modo de composição regido pelo princípio da desmarcação – no sentido futebolístico, se quiserem. Uma posição determinada de um elementos suscita uma velocidade de afastamento de um outro, que mais à frente se irá revelar consequente, quando o elemento de partida tiver, por sua vez, desenvolvido a sua própria força. O jogo recomeça sempre, dentro de cada quadro e entre os diferentes quadros.
Um trabalho que prescinde tema – sem título – não põe a alternativa abstracto/figurativo, integra objectos sem arrastar com eles cargas problemáticas. Há redes que funcionam como balizas, menos para meter golos que para sinalizar percursos. Há círculos concêntricos que no começo são alvos suspensos e depois tapetes no chão. E faixas estendidas como passadeiras que, se forem bem feitas, são uma escada a andar, ela própria, por uma casa acima.
Linhas de desmarcação das coisas. Por isso as camisolas vermelhas dos jogadores têm pequenas linhas oblíquas amarelas. Para aumentar a velocidade.
Pedro Casqueiro tinha umas calças de cabedal preto, novas e portanto pouco modeladas. Foi-as sucessivamente pintando de vermelho, roxo, preto, rosa. São agora de pintura e perfeitamente moldadas. Com alguns pregos de metal amarelo. Ficam bem uma t-shirt e uns botins pretos. Meias vermelhas.


Um jogador difícil de marcar.

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Alexandre Melo, “Pedro Casqueiro: o princípio da desmarcação”, in Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, 7/8/1984

PEDRO CALAPEZ



Fundação Calouste Gulbenkian
Desenhos sobre madeira, 1989


Nas duas exposições realizadas recentemente por Pedro Calapez, foram exibidos trabalhos dos dois últimos anos. Estas pinturas englobam, quanto aos materiais e execução, as principais características dos primeiros trabalhos do pintor iniciados em 1983-84. O suporte utilizado foi a madeira em bruto, por vezes coberta por uma leve camada de cinza. À primeira vista, as pinturas consistem numa acumulação obstinada de gestos garatujados e de contornos criados quer por grafite preta quer por gravação na superfície da madeira. O método de desenhar de Calapez define-se por uma sensualidade perspicaz, que não tem, contudo, a ver com o drama psicológico do expressionismo vibrátil. Trata-se, pelo contrário, de uma sensualidade física que resulta da oposição entre os gestos das mãos e a resistência objectiva dos materiais, criando assim uma sensualidade própria do que é manual.

No que diz respeito à composição, o resultado deste processo é a criação de uma nebulosa espacial que dá à sua pintura uma transparência e profundidade paradoxais. Desta atmosfera única, podemos destacar um número de contornos e formas básicas principais que sugerem truques de perspectiva geométrica ou estruturas cenográficas ou arquitecturas elementares. Sugere-se ainda a existência de objectos tais como poços, mesas, altares, tronos e sepulturas que, devido ao isolamento a que estão sujeitos, adquirem um peso religiosamente simbólico. Neste trabalho predominam formas que nunca emergem completamente mas que pairam no limite da própria realização, como que recuperadas de um todo perdido.

Poderíamos então dizer que a pintura de Calapez tenta recuperar as fundações ou o que resta das estruturas e crenças. Depois de se ter perdido toda a naturalidade da presença humana, todo o sentido da totalidade, a tarefa que nos fica é a de criar um espaço – tanto real como abstracto – no qual se torne possível repor signos essenciais e valores perdidos.


Contrariamente ao que faz em trabalhos anteriores, Calapez já não representa aqui o céu explorando a densidade, as cores, a luminosidade; em vez disso, cria o seu próprio céu.

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Alexandre Melo, Pedro Calapez – Fundação Gulbenkian, in Flash Art, Milão, Outubro, 1989

VASCO ARAÚJO



ARTFORUM
Maio/May, 2006



L'inceste, 2004


Let’s begin with a question: What might one have done to induce an apt mood for viewing Vasco Araújo’s recent show “L’inceste”? My recommendation: Listen to Mozart and read the Marquis de Sade. For “L’inceste” was a contest between reason and perversion, elegance and corruption, good and evil. And the only rules of the game are those that determine the theatrical power of staging and interpretation. The show was composed of ten works spread over three rooms in Lisbon’s Museu Nacional do Azulejo (National Tile Museum). The dialogue between the traditional pieces on permanent exhibition and Araújo’s intervention was an additional element of complexity or, if you prefer, perversity in reading the show. Araújo’s works were (each title L’inceste, 2004) were standard museum vitrines, inside which were porcelain pieces installed in a gray moiré fabric base with embroidered texts. The objects chosen, obtained at a secondhand markert in Brussels, were replicas of German, French, and Portuguese originals from the eighteenth century, representing domestic court scenes, bucolic settings, and animals (birds, frogs, toads, and lizards). The texts were quotations from Sade’s Eugénie de Franval (1800), a novella recounting an incestuous affair between father and daughter and one of the author’s most concentrated works.
One showcase contained the declaration of mutual love between father and daughter, accompanied by a depiction of a rural couple in which the woman offers a glass to the man, whose amputated arm lies in front of the cited texts. In another vitrine a lizard approached two chicks. The legend described the incestuous couple in flagrant before the offended mother/wife and included, in an accusation made by her, the sole use of the word “sadistic” in the show. One case containing a procession of frogs and toads illustrated in a more distant and allusive form the most generic moral maxim of this series: “No, sir, there is nothing in the world, nothing that deserves praise or censure, nothing worthy of reward or punishment, nothing that, being unjust here, is not legitimate five hundred leagues away; there is, in sum, no true evil, no eternal good.”

In another recent work, Jardim (Garden), 2005, not in this show, the same type of (essentially political) concern with the general reversibility of social and moral judgements is evinced through a video made in the Jardim Tropical in Lisbon, a garden created in 1906 and known then as Jardim Colonial. The film offers the contrast between a bucolic atmosphere and the garden’s strange sculptural representations of African peoples by European sculptors. These mute figures are transformed by the film’s sound track into characters in a narration in which passages from Homer come to function as subversive commentary on the relationship between us and others, between citizens and foreigners, in a context of invasion, war, and confrontation. In the war of interpretations and narratives on a global scale, who are we and who are the foreigners? Who will relate the next story – Sade or Fragonard?


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Texto traduzido para inglês por Clifford E. Landers e publicado na revista mensal Artforum, na edição de Maio de 2006, por ocasião da exposição “L'inceste”, de Vasco Araújo, no Museu Nacional Azulejo, Lisboa, 2005. 

HELENA ALMEIDA



ARTFORUM
Setembro/September 2004


Seduzir, 2002

Pés no Chão, Cabeça no Céu” (Feet on the Ground, Head in the Clouds) encompasses thirty-five years of work in which, between the studio floor and the blue sky, everything passed through the body of Helena Almeida. In the 60’s the artist began questioning the material and conceptual elements that constitute the definition of painting. In the 70’s she abandoned traditional modes of depiction to undertake an array of practices whose point of departure is her own body. It all begins “inside me” – “Dentro de Mim”, as the title of a series of photographs from 2000-2001 says – not in the psychological sense of subjectivity that expresses itself, but in the performative sense of material (the body) presenting itself.
Almeida creates successive series of black-and-white photographs of herself. The photos register moments of the action of moving about, painting, or drawing in the studio – not painting or drawing by traditional means, perhaps, but through actions that transform movements into a work of art. In the series “Pintura Habitada” (Inhabited Painting), 1975-77, and “Desenho Habitado” (Inhabited Drawing), 1975, we see the artist in the act of painting or drawing, holding in her hand the brush or pencil from which flow streams of blue paint or black thread that, above or emerging from the surface of the photograph, possesses a real physical presence. The video Sente-me, Ouve-me, Vê-me (Feel me, Hear me, See Me), 1978-80, reveals the performance dimension of the work that precedes the photos.
Almeida’s transdisciplinary dynamic leads not only to an abandonment of the traditional artistic practices but to the progressive awareness of the necessity of making the passage from oneself to others. In the “Inside Me” series, made by attaching mirrors to different parts of herself, the body opens itself to reflect space, light, and everything that surrounds it. In these images the movement of the body remakes the surrounding space, and remakes itself, as body, through the absorption of that same space. The way the author “installs” her body in the studio modifies what would otherwise be our normal perception of space by generating an installation effect.
Almeida’s work explores questions such as: How is it that the body and the movement of a body – that of the author – makes art? How is it that during this process the body itself is what becomes art? And after various forms of interaction (absorption, penetration, occultation, habitation) between the body and the works of art that arise from it, what remains for art besides the mark of a body’s passage? The answer to this last question lies perhaps in the title of a recent series: “Seduzir” (Seduce), 2002. In these photographs, we witness the peculiar staging of certain poses that we can interpret as commentary on the stereotypes of feminine seduction. But the most unsettling effect results from the artist’s confronting us with the presence of her body in a manner that forces us, as observes, to take cognizance of the place and limits of the action and power of our own bodies.

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Texto traduzido para inglês por Clifford E. Landers e publicado na revista mensal Artforum, na edição de Setembro de 2004, por ocasião da exposição “Pés no Chão, Cabeça no Céu”, de Helena Almeida, no Centro Cultural de Belém, Lisboa, de 19 de Março a 6 de Maio, 2004.

PAULA REGO



ARTFORUM
Novembro/November, 1999



The Company of Women, 1997


The evocation of tension – social, sexual, emotional, and fictional – is the thread that runs through Paula Rego’s work. These tensions unite figures who appear to be rooted in the intimacy of domestic life, yet Rego’s visual narratives often eschew realism in favour of allegory and dream, giving her art an archetypal quality.
Born in Portugal, Rego has been living in London since the 60’s, where she gradually emerged as significant voice in contemporary European painting. Throughout her career, she has embraced a wide range of styles, beginning with the art brut of Dubuffet in the 50’s. She is especially known for her imaginative post-Pop collages of the 60’s, and she continued to work in this medium in the following decade. It was in the 80’s that she began making classical, one might even say restrained, paintings characterized by their psychological tension, heavy atmosphere, and classical figuration.
Here she executes traditional Western forms of representing the figure (above all the female figure) in a vigorous and lively manner that gives her vision of the body a palpable contemporaneity.
This show unites two of her most recent series of paintings. The first, “O crime do Padre Amaro” (The crime of Father Amaro), 1997-98, takes as its inspirations the eponymous novel by José Maria Eça de Queirós, a nineteenth-century Portuguese writer who was a critic of the hypocrisy of his society.
In this book he denounces the Catholic Church through the figure of an adulterous priest. The paintings are not, however, straight illustrations. In some works, Rego captures individual characters in particularly intense moments, in which psychological tension, or its momentary abatement, is conveyed. Four works from the series depict a man surrounded by women in a domestic scene. In two of these, the man occupies the centre, the conventional position of power, but his involvement in an eminently feminine domain seems to infantilize him (as an adult assuming the pose of a child, in The Company of Women, 1997) or feminize him (as in Mother, 1997, In which the man is wearing a skirt). Rego destabilizes the distribution of authority, and the play of gazes, the unexpected choreography of poses, the highly worked fabrics, and the improbable decorative elements further contribute to the work’s narrative density and air of suspense.

The other series, “Untitled”, 1998-99, directly addresses abortion, a subject that is frequently alluded to in Rego’s work. Here it is treated openly, which has rarely been done in painting. Rego’s title underlines the unspeakable nature of the subject, especially in the context of a conservative and Catholic culture. Rego’s rendering of the physical density of bodies, the determined gazes, the robust poses – visible in the tautness of hands and feet – lends her work an obvious dramatic tension, out of which emerges a sense of affirmation and resistance that is, perhaps, the mark of a specially feminine authority and vision.

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Texto traduzido para inglês por Sheila Glaser e publicado na revista mensal Artforum, na edição de Novembro de 1999, por ocasião da exposição 'O Crime do Padre Amaro', de Paula Rego, na Fundação Calouste Gulbenkian (CAM), Lisboa, 1999.

DOSSIER PORTUGAL - PEDRO CALAPEZ



Pedro Calapez
Flash Art, 1988



Pedro Calapez cria também um espaço genético. Mas em Calapez a diferença é que a violência se converte em retirada, a guerra em silêncio e o dourado em prateado. Esta interioridade parece disfarçada porque se apresenta como um espaço cénico, de espectáculo. Contudo é sempre um estádio pessoal duma realidade impossível, lugar de uma intimidade última. A relação com o exterior torna-se dupla: faz-se a partir da utilização de formas volumétricas que tomam dimensões arquitecturais quando em contacto com o movimento das linhas horizontais; e a partir da articulação das formas de acordo com o conhecimento das proporções antigas e sagradas, ou de acordo com a ambiguidade da sua destruição deliberada pela acção subjectiva do autor.


A sequência desta evolução fez com que Calapez simplificasse os referentes volumétricos e começasse a elaborar composições mais complexas aumentando o número de pontos de vista daqueles elementos formais escassos. As tensões internas/externas e a simplificação/complexificação são visíveis na afirmação linear que as formas volumétricas tentam adquirir; assim como na conjugação de soluções tridimensionais ilusórias com elementos pictóricos bidimensionais. A solução última é o predomínio das qualidades dos elementos abstractos em toda a composição. Tudo emerge como que dependente dum olhar analítico, dum jogo de sangue frio, que nos remete para um situação post-mortem. Enquanto espaço abstracto, próximo do fim da história, a pintura de Calapez surge para testemunhar uma realidade perdida; manuscrito incompleto da memória de um conhecimento que precisa de ser decifrado, como um enorme mapa do céu que fascina o nosso olhar.

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Pedro Calapez created a genetic space. But in Calapez the difference is that violence becomes a retreat, war becomes silence, and the golden colour turns silver. This inferiority appears to be disguised, because it presents itself as a scenic space, a show-place. However, it is always a personal stage of an impossible reality, a place with ultimate intimacy. The relation with the exterior becomes twofold: from the use of volumetric forms that gain architectural dimensions when they come into contact with the movement of horizontal lines; and from the articulation of the forms according to knowledge of the ancient and holy proportions of its deliberate destruction by the author’s subjective action. 

The sequence of this evolution made Calapez simplify the volumetric referents and start to make more complex compositions by the increasing number of points of view of those scarce formal elements. The internal/external tensions and the simplification/complexification are visible in the straightforward affirmation which the volumetric forms tend to gain; and in the conjugation of tridimensional illusionary solutions with bi-dimensional pictorial elements. The ultimate solution is the domination of the qualities of abstract elements throughout the composition.

Everything emerges as if dependent on an analytical look, on a coldblooded game, as in a post-mortem situation. As an abstract space, closed to the end of history. Calapez’s painting emerges to witness a lost reality; memory’s incomplete manuscript of a knowledge that needs to be deciphered, like an enormous sky map that clings to our eyes.

Traduzido por/Translated by: Maria Madalena Simões Proença


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Alexandre Melo, “Dossier Portugal”, Flash Art, Milão, nº138, Jan/Fev, 1988